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02/07 -
LIVRO ABORDA "HISTÓRIA OCULTA DO SIONISMO"
Título: "A História Oculta do Sionismo. A verdadeira história da formação do Estado de Israel". Autor: Ralph Schoenmann Editora Sundermann
Certamente não são muitos os livros que podemos resumir em uma única frase: as teses fundamentais defendidas pelo autor foram confirmadas pelos acontecimentos. Agregue-se a isso o fato de que o trabalho de Ralph Schoenman aborda um dos temas mais polêm icos da história contemporânea, a formação do Estado de Israel, e ter-se-á uma dimensão de quão excepcional é a obra que a Editora Sundermann oferece ao leitor. Conhecedor profundo do tema ou apenas iniciante, o leitor não passará incólume pelas páginas de A história oculta do Sionismo. O rigor da análise e um árduo trabalho de pesquisa resultaram em uma obra que nos oferece algumas chaves fundamentais para compreender a essência dos conflitos no Oriente Médio e a chamada “questão palestina”. Ao explicar os interesses mais profundos envolvidos na formação do Estado de Israel, Schoenman demonstra que o problema da guerra e da paz no Oriente Médio vai mais além das explicações superficiais. Não se trata de uma “guerra entre religiões” ou de um “conflito de civilizações”, como afirmam os governos e a imprensa imperialista. Para Schoenman, a relação entre guerra e paz no Oriente Médio está diretamente ligada à n atureza do Estado de Israel. Para nos introduzir nesse tema, o autor retira o manto que encobre os quatro mitos que moldaram a consciência do mundo ocidental sobre o sionismo e a fundação de Israel: “a Palestina era uma terra sem povo, para um povo sem terra”; o caráter da democracia israelense; a necessidade da segurança como o motor da política exterior de Israel; e o quarto mito, talvez o mais influente, e que falsamente reivindica o sionismo como o herdeiro moral das vítimas do Holocausto. Schoenman demonstra como os sionistas se opuseram e minaram a resistência à barbárie nazista. Assim, os que desejam compreender os reais interesses envolvidos na criação de Israel e como a ideologia sionista se encontrou com os interesses das grandes potências, e em particular dos Estados Unidos após a II Guerra Mundial, encontrarão na História oculta do sionismo uma fonte valiosa de informações. E não seria exagero afirmar que o trabalho d e Schoenman constitui uma das obras de referência sobre o tema. Única saída possível Talvez a parte mais polêmica desse trabalho esteja na fundamentação da única possibilidade da conquista da paz: a defesa de um único Estado, de uma Palestina laica e democrática, onde os direitos civis se estabeleçam em base à igualdade entre todos e não pela identidade étnica ou religiosa. Ao defender uma Palestina laica e democrática, o autor tão somente reafirma o princípio fundamental que esteve na base fundacional das organizações que lutavam contra a ocupação de Israel. O não reconhecimento do Estado de Israel foi um ponto de princípio para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) — uma frente de organizações cujo integrante mais importante era o Fatah —, que virou a grande referência da causa palestina e elevou a ícone da resistência seu líder, Yasser Arafat, até sua morte em novembro de 200 4. No entanto, em novembro de 1988, o Conselho Nacional Palestino, principal instância da OLP, reunido na Argélia, tomou uma decisão inédita: reconheceu o Estado de Israel, proclamou um Estado palestino nos territórios ocupados (Cisjordânia e Gaza) e, ademais, renunciou à luta armada para fazer frente à ocupação dos territórios palestinos, tanto no território histórico quanto nos conquistados pela política expansionista de Israel. Em setembro de 1993, a OLP assinou os Acordos de Oslo, em cuja declaração de princípios a OLP reconhece o Estado de Israel em troca da retirada imediata das tropas israelenses de Gaza e Jericó e do estabelecimento de uma Autoridade Nacional Palestina (ANP), rumo à criação de um Estado palestino. Ralph Schoenman terminou de escrever "A história oculta do sionismo" em abril de 1988, já durante a Intifada, que expôs ao mundo o massacre cotidiano de Israel contra a população palestina. Os acontecimentos posteriores a 1988, portanto, não são abordados nessa obra. Acordos de “paz” Celebrados os Acordos de Oslo, a diplomacia norte-americana passou a divulgar que a chamada “questão palestina” marchava rumo à sua solução. Transcorridos dezesseis anos da assinatura do acordo, em que medida a solução diplomática de dois Estados se impôs, negando a tese fundamental desenvolvida por Schoenman? Em janeiro de 2006, ocorreu um fato inusitado e inesperado para a maioria dos analistas: o Fatah perdeu a maioria no parlamento da ANP para um partido de caráter religioso, o Hamas, que se recusa a reconhecer o Estado sionista mas, em contrapartida, comete o equívoco de defender um Estado islâmico para a região. O descrédito das lideranças árabes tradicionais é um fato indiscutível. E não há como compreendê-lo sem analisar as conseqüências dos Acordos de Oslo para a maioria da população palestina. Após a assinatura dos “acordos de paz”, Israel acelerou a colonização da Cisjordânia, impedindo a livre movimentação da população palestina. Aprofundou a dependência econômica, energética e de água dos palestinos em relação ao Estado sionista. Os relatos de tortura, prisão indiscriminada, destruição de moradias, isolamento de comunidades, cortes de energia, água, alimentos e mesmo assassinatos coletivos como os do campo de refugiados de Jenin em 2002, similar ao realizado em Sabra e Chatila em 1982, que o autor vivenciou in loco, demonstram que a política israelense não sofreu nenhuma modificação. E a chave para compreender o fracasso dos Acordos de Oslo e a crise atual pode ser identificada no diagnóstico de Schoenman: “Em Israel, da mesma forma que na África do Sul, a mínima justiça requer o desmantelamento do Estado de apartheid e sua substituição por uma Palestina laica e democrática”. O reconhecimento do Estado de Israel só legitimaria a conquista sangrenta da Palestina e seria um obstáculo para uma paz verdadeira e justa na região. Os fatos deram razão a Schoenman. Não é somente a conjuntura vivida no Oriente Médio que torna a obra de Schoenman importante. A publicação de A história oculta do sionismo vem preencher um importante vazio historiográfico sobre a fundação do Estado de Israel em língua portuguesa, num movimento que, esperamos, seja apenas o primeiro passo na direção de outras publicações que possam se contrapor às visões dos telejornais e da grande imprensa sobre o conflito palestino.
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