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19/06 - SARAMAGO: CORAGEM PARA DENUNCIAR "ISRAEL"

José de Sousa Saramago (FOTO) jamais se deixou intimidar pelas ameaças e truculência do sionismo internacional. Foi corajoso ao comparar os Territórios Palestinos ao campo de concentração nazista de Auschwitz. E mostrou ainda mais apreço aos Direitos Humanos quando se referiu ao exército israelense como "judeu-nazi". Abaixo, uma entrevista memorável do escritor português, prêmio Nobel de Literatura em 1998 - único dado a um escritor de língua portuguesa até hoje - à BBC de Londres, sobre a tragédia palestina e a sanha genocida de "Israel".

BBC - A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do Exército israelense como atos "nazistas" e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?

José Saramago - A declaração de que o Exército israelense se tornou "judeu nazi" foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994), respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC - Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid...

Saramago - Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.

A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.

O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?

BBC - O senhor diria que, nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?

Saramago - Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais colônias no interior do território palestino do que aquelas construídas quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais colônias no interior dos territórios ocupados.

E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: as colônias precisam do Exército para se defender. Mas o Exército precisa das colônias para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.

BBC - O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão), fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?

Saramago - Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato. Mas todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo Exército israelense não são obstáculos à paz... Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948... Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.

Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC - Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita ou às atuais negociações?

Saramago - Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.

E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se as colônias israelenses nos territórios ocupados são 205, e todas elas protegidas pelo Exército e elas próprias armadas? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC - Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?

Saramago - Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não aguentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer

 

 

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