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A VISITA DE BASHAR AL ASSAD AO BRASIL

Por Lejeune Mirhan* 

O Oriente Médio tem sofrido mudanças nos últimos tempos. E tais mudanças vão se mostrando todos os dias mais necessárias e vêm ocorrendo com uma grande velocidade. Às vezes podem sair ao controle dos governantes dos 22 países árabes daquela estratégica região do planeta. É emblemático o caso do Egito. No dia que Israel atacou a Flotilha da Paz, que se dirigia a Gaza (31/5), e assassinou nove pacifistas que levavam ajuda humanitária ao território, o Egito abriu suas fronteiras com a Palestina.

No dia seguinte, 1º de junho, realizamos uma reunião de emergência para prestar nossa solidariedade. Ocorreu na Mesquita do Brasil. Mais de 60 pessoas e entidades fizeram-se presentes. Para surpresa de todos, que militam há décadas na luta em apoio aos árabes e palestinos, lá estava o Dr. Ahmed Hassan Ibrahim Darwich. Sentado á mesa ao lado o vereador comunista Jamil Murad (PCdoB/SP). Novos tempos? Mudanças no OM?

A Síria, depois que o Iraque de Saddam Hussein foi ocupado, em março de 2003, passou a ser o país do OM que mais apoia a causa árabe e palestina. Sua capital, Damasco, recebe de braços abertos escritórios de representação de organizações revolucionárias (islâmicas ou laicas) que lutam pela libertação da Palestina.

Dr. Bashar Al Assad ainda vai completar 45 anos em setembro próximo. Com a morte de seu pai, Hafez Al Assad, acabou tendo que assumir, por determinação do parlamento sírio, as tarefas presidenciais. Tem manifestado posições pessoais bastante progressistas e avançadas. Seu governo é de unidade nacional e até mesmo o Partido Comunista da Síria ocupa pastas importantes. Claro, o Partido hegemônico é o Partido Socialista Árabe Sírio – Baath, de linha mais nacionalista e patriótica.

Há muito a imprensa internacional vem apontando a existência de um novo eixo político no OM. Ele seria composto por Damasco-Teerã ou Síria-Irã. Mais recentemente, juntou-se a esse eixo a Turquia, de Recept Tayyp Erdogan, o premiê turco. Um eixo forte. A Turquia do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), moderadamente islâmico, vem se afastando do Ocidente e se aproximando de suas raízes históricas com o Oriente.

De certa forma, posso dizer que acertou Samuel Hungtinton quando em 1993 publicou o seu famoso Clash of Civilization na revista Foreing Affairs, a maior publicação de política internacional dos Estados Unidos (lembro-me de ter lido o original e ter produzido um paper sobre o assunto à época). A Turquia, vaticinava Hungtinton, nunca seria recebida pela União Europeia e por isso não deveria dar às costas para a Ásia, a sua origem. Pois dito e feito. Aqui esta a Turquia reforçando o eixo Síria-Irã. Não bastasse tudo isso, para comprovar o ditado popular de que “a vida dá tantas voltas”, o Líbano, de Hafic Hariri, hostil à Síria, já visitou Damasco duas vezes nos últimos 12 meses, absteve-se de votar as sanções propostas pela ONU ao Irã e tende a fortalecer esse eixo do “bem”, em oposição ao “eixo do mal”, capitaneado pelos Estados Unidos e Israel.
 

Relações com o Brasil

Do ponto de vista comercial, não se pode dizer que temos um grande comércio bilateral com os árabes em geral e com a Síria em particular. Em sete anos de laços mais estreitos entre Brasil e Síria, pulamos de US$78 milhões de dólares, para US$307 milhões em 2009. Talvez ultrapassemos a marca de meio bilhão de dólares em 2011. Mas, as relações são mais estreitas do ponto de vista das nossas tradições. Estima-se que pelo menos uns seis milhões de brasileiros tenham descendência síria, que acaba sendo maioria na migração árabe, seguida de libaneses.

Mas, as identidades entre os dois países vêm ocorrendo no aspecto político e diplomático. Ambas as nações vêm fazendo relevantes esforços – dos quais a mídia golpista debocha o tempo todo – para que uma paz justa e duradoura seja estabelecida no OM, em especial que os palestinos possam ter seus direitos reconhecidos e seu estado edificado, de acordo com resoluções da ONU que já ultrapassam a 60 anos.

As diplomacias dos dois países estão absolutamente afinadas, com objetivos comuns, qual seja, as relações Sul-Sul e fortalecer o diálogo e a cooperação entre os povos e nações em desenvolvimento. Forma-se na atualidade uma espécie de bloco que na década de 1960 era chamado de “países não alinhados”, ou terceiro-mundistas. Nossas identidades políticas são tão grandes, que percebemos que até os países que Dr. Bashar visitou antes de chegar ao Brasil também são nossos amigos: Cuba e Venezuela. A Síria apoiou decisivamente os acordos sobre enriquecimento de urânio estabelecidos pelo Irã e Turquia, mediados pelo Brasil. Ou seja, a Síria, hoje, é o país árabe que joga o papel mais relevante no OM.

Diversos acordos de cooperação foram assinados, fortalecendo laços históricos e culturais entre os dois povos. Dr. Bashar Al Assad visita o Brasil quando comemoramos 130 anos do desembarque no país dos primeiros imigrantes árabes, vindos em 1880, quando autorizados por Dom Pedro II, que passou alguns anos no OM e conheceu de perto tanto a Síria quanto o Líbano e Egito.

Seja bem vindo, Dr. Bashar! Que tenha vida longa à amizade entre nossos dois povos!

* Lejeune Mirhan é sociólogo e arabista. É presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo e membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabes de Lisboa. Integrante da International Sociological Association.

 

 

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