|
A OCUPAÇÃO DA PALESTINA É UMA INJUSTIÇA
Por Marco Politi* Talvez o Papa Ratzinger não tenha o talento das frases fulminantes, em que Wojtyla era excelente, mas a política da Santa Sé é, há anos, de uma extrema coerência. Começando pelo ataque israelense ao Líbano em 2006, que massacrou importantes infraestruturas civis do país, o Vaticano sempre repudiou a tentativa dos governantes de Israel de impôr uma paz baseada na violência das armas. O Vaticano condenou as destruições no Líbano, depois denunciou em 2008 os assassinatos indiscriminados de mulheres e de crianças durante a operação "Chumbo Fundido" em Gaza (que custaram a Israel a condenação por crimes de guerra por parte da comissão da ONU, liderada pelo juiz de origem judaica Goldstone), e agora – depois do massacre de nove civis, cometido pelos militares israelenses em águas internacionais ao longo de Gaza – a Santa Sé pediu uma investigação internacional (assim como a França e a Inglaterra) e o fim do embargo imposto à Faixa de Gaza. Por outro lado, há anos o cardeal Martino, ex-presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, já chamava Gaza de um campo de concentração "a céu aberto". Atualmente, a Santa Sé sempre foi sistemática na denúncia do terrorismo contra Israel, especialmente por parte do fundamentalismo islâmico. A visita papal ao Chipre marca porém um novo passo à frente do Vaticano para favorecer a formação de um bloco internacional capaz de agir eficazmente para levar o conflito árabe-israelense a uma solução de paz definitiva. No documento ("Instrumentum Laboris"), que irá servir de base para o Sínodo sobre o Oriente Médio, programado para ocorrer no Vaticano no dia 10 de outubro, denuncia-se "a injustiça política imposta ao palestinos", rejeitam-se os fundamentalismos cristãos (e tacitamente os judeus) que gostariam de motivar a ocupação com as Sagradas Escrituras, reforça-se a necessidade de um Estado palestino ao lado de um israelense, ambos "em fronteiras seguras e internacionalmente reconhecidas". Do ponto de vista religioso, enquanto as relações com o judaísmo são definidas como "essenciais" (por causa das ligações bíblicas e a judaicidade de Jesus), as relações com o Islã são julgadas "vitais". Antissemitismo e antijudaísmo são definitivamente repudiados. O antissionismo, como fenômeno político, é julgado estranho à esfera pastoral da Igreja. Além disso, o julgamento negativo sobre o fundamentalismo islâmico e sobre os movimentos de re-islamização das sociedades do Oriente Médio não tem meios termos. Bento XVI pede "laicidade positiva", separação entre Estado e religião, igualdade dos cidadãos de todas as fés. E sobretudo "liberdade de consciência", isto é, não só de praticar o culto de uma religião, mas também de mudá-la. Enfim, os cristãos do Oriente Médio, justamente porque a Igreja não é "ocidental", tem a tarefa de laicizar e democratizar as suas nações. Regimes autoritários e ditaduras são claramente indicados como situações a serem superadas. Significativamente, Bento XVI chama os cristãos a trabalhar junto com os muçulmanos e judeus para a instauração de sociedades abertas, solidárias, livres. E justamente da Turquia chegam notícias que racham a apressada etiqueta de "loucura" atribuída ao assassinato do vigário apostólico Dom Padovese. O assassino Murat Altun não era um convertido cristão. Não estava em tratamento psicoterápico por depressão, mas havia se submetido a uma visita ao ambulatório psiquiátrico universitário de Iskendun, onde o haviam considerado totalmente são. Um álibi pré-construído? Do vento obscuro do fundamentalismo e do ultranacionalismo turco podem sair muitas surpresas. O que é certo é que o brutal assassinato por degolamento teve um sabor ritual. O assassino, que havia subido ao telhado da casa, começou a gritar: "Matei o grande satanás! Alá é grande!". Para confundir as coisas, Murat, depois de ter dito que havia assassinado "por revelação divina", estaria agora espalhando informações sobre supostos abusos de Padovese sobre ele. A Asia News, a agência dos missionários do Pime (Pontifício Instituto Missões Exterior), pede que o Vaticano investigue a matriz religiosa do atentado. * Marco Politi é jornalista Fonte: Il Fatto Quotidiano Tradução: Moisés Sbardelotto Revisão e edição: Ibei
|