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VISÃO DO CONFLITO ÁRABE-ISRAELENSE NAS REDAÇÕES BRASILEIRAS
Por Ruben Holdorf* O desconhecimento a respeito de termos, expressões típicas das línguas árabe e hebraica, tradições culturais e religiosas, e sobre o imbróglio da colcha de retalhos política, sinaliza o pouco caso das redações brasileiras para com os problemas do Oriente Médio ou a falta de preparo dos editores no processo de seleção jornalística do material a ser publicado. E isso não se refere apenas aos jornais fora dos grandes centros nacionais. A chamada grande imprensa também comete equívocos ao reproduzir e não apurar devidamente as notícias enviadas pelas agências internacionais.
As interpretações ambíguas ou deturpadas aparecem quando repórteres e editores tentam diferenciar os diversos grupos religiosos islâmicos, mesmo entre os judeus. Seguindo padrões norte-americanos e europeus, os jornais repetem os modelos preconcebidos a respeito de quem são os xiitas e o que os distingue dos sunitas.(1) Enquanto os primeiros são considerados os mais radicais, os sunitas são os moderados. O vocábulo ortodoxo produz arrepios nos editores. Numa visão limitada, ele simboliza o fundamentalismo extremo, fanático. Por isso sua correlação com qualquer fato noticioso que provoque indignação, como os atentados terroristas ou as ações de judeus seguidores da Torá.(2) Aprofundando o rol de acusações contra as vacilantes coberturas dos jornais brasileiros, em geral, as fontes israelenses são escritores, intelectuais, militares ou renomados políticos. Do lado árabe, indivíduos desconhecidos, inexpressivos no cenário internacional. José Arbex Jr. sintetiza essa questão, assegurando a supressão do elemento árabe nas entrelinhas das matérias: "Eu procurava selecionar fotos de seres humanos no ‘lado árabe'(!). Em geral, tais fotos não existiam. Os árabes eram apresentados apenas como uma idéia, um conceito ameaçador [...] Os árabes já haviam sido culturalmente eliminados, antes de serem fisicamente exterminados [...] O slogan criado pelo movimento sionista no final do século XIX - ‘uma terra sem povo (a Palestina) para um povo sem terra (os judeus)' - sintetiza com clareza meridiana essa operação."(3) O assessor de imprensa Omar Nasser Filho, da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná, corrobora com essa versão de omissão e desinteresse pelas questões árabes na mídia brasileira. Nasser acusa os grandes veículos jornalísticos de privilegiarem a versão israelense, entre eles "estão a revista Veja, a Rede Globo de Rádio e Televisão, os jornais O Globo, O Estado de S.Paulo, a Folha de S.Paulo, apenas para ficar nos principais".(4) Ao privilegiar um lado, a imprensa começa a adota um discurso. Aos contrários resta o símbolo de terrorista. Nasser abona o argumento de que as atitudes em defesa de um dos lados reforçam interesses comerciais e políticos, dentro dos quais se incluem os de ordem ideológica. No ataque da força aérea israelense à Faixa de Gaza, em 1.º de março de 2008, quando morreram cerca de oitenta pessoas, segundo a BBC, a atitude da imprensa brasileira sustentou as acusações da comunidade árabe de que a máxima árabes atacam e Israel responde não são resultados de especulações sensacionalistas e vazias. No mesmo dia, no Jornal da Band, às 20 horas, o âncora apresentava a notícia "Israel ataca a Faixa de Gaza e mata mais de cinqüenta palestinos". A Rede Bandeirantes pertence a Johnny Saad, neto de imigrantes árabes. Sua concorrente, a Rede Globo, também noticiou o fato na mesma noite. O Jornal Nacional anunciou às 20h30 que "Israel ataca a Faixa de Gaza e mata mais de cinqüenta palestinos em resposta aos ataques com foguetes do Hamas". O jornalismo da Globo seguiu a orientação das agências internacionais, certamente embutida em sua linha editorial, caso contrário não seria aprovada com os destaques acima. Além da redução do número de vítimas para setenta, em relação à BBC, a Folha de S.Paulo também não escapou do padrão internacional no dia seguinte, 2 de março. O título saiu assim: "Ofensiva é uma retaliação aos ataques com foguetes". Ou seja, uma resposta ao terrorismo palestino. Israel apenas cumpriu seu papel de guardião da paz nos territórios ocupados. Os eufemismos igualmente aparecem nos jornais brasileiros, referindo-se a Israel. Os israelenses não são tratados como invasores, mas colonos. Israel não ataca, mas se defende. Quando os palestinos atacam ou se defendem nos territórios em litígio, eles são julgados pela imprensa como assassinos de colonos judeus, enquanto soldados israelenses matam terroristas. As diferenças semânticas entre essas palavras comprometem a imagem de um ou outro lado do conflito. O assassinato é premeditado, uma ação humana contra o semelhante. O verbo matar não ressuscita ninguém, mas suaviza as atitudes. Pode denotar autodefesa. Diante disso, surgiram máximas como árabes atacam, israelenses respondem. Na maior parte das vezes, as expressões mais suaves se referem a Israel. O termo colono se associa a alguém, ou algum grupo, iniciando a exploração, ou desbravando, um território ainda virgem, intocado. Automaticamente o vocábulo remete o leitor a imaginar pessoas trabalhadoras, de moral ilibada. Qualquer violência praticada contra eles atrai a solidariedade de outros. Logo, terroristas assassinos de colonos não podem ficar impunes e merecem uma resposta. Afinal, as autoridades precisam defendê-los. Esta seqüência lógica se percebe nas redações e nos despachos internacionais. Manuel Chaparro percebe os manuais de redação como instrumentalidades da propaganda institucional, cumprindo no plano externo com "o objetivo de elaborar imagem institucional que estimule e mantenha demandas: circulam no mercado como produtos editoriais, tornando-se best-sellers. Internamente, a julgar pelos exemplos recortados, os manuais não conseguem sobrepor-se aos interesses particulares dos diversos intervenientes".(5) Isto é, o Manual de Redação corre constantemente o risco de ser negado em nome de interesses superiores, mesmo que por motivos desconhecidos e nem sempre assimilados e aceitos pelos editores. Ao explicar como se processa a seleção das matérias internacionais, o editor João Cláudio Garcia, do Correio Braziliense, garante a ênfase de acordo com a relevância e repercussão no exterior, atendendo sempre às exigências do público-alvo, majoritariamente de Brasília e arredores. No Correio há outras variáveis, como o espaço e a possibilidade de aprofundamento de determinado assunto que desperte mais a atenção. Para alguns temas específicos, o Correio tem política editorial, periodicamente discutida entre a Editoria Mundo e a direção do jornal. Ao receber das agências e dos correspondentes matérias a respeito dos conflitos entre árabes e israelenses, a Editoria Mundo sustenta a inexistência de qualquer determinação prévia de posicionamento do jornal neste caso. "Temos apenas de tomar cuidado para não seguir, cegamente, parcialidades enviadas pelas agências de notícias e publicações internacionais. No caso do conflito, considero que os dois lados cometem erros e acertos. Buscamos equacionar a cobertura. Se num dia, por ocasião dos fatos (um bombardeio mais agressivo de Israel, uma saraivada de foguetes palestinos, por exemplo), a edição aparenta ser mais anti-Israel ou anti-Palestina, procuramos equilibrar a cobertura nos dias seguintes."(6) No Jornal do Brasil, do Rio, o editor-executivo Marcelo Ambrósio sustenta uma posição semelhante à de Garcia. Em qualquer área, o critério de seleção une relevância e ineditismo. Fatos que se repetem diariamente deixam de ser novidade e acabam preteridos na edição em relação a aqueles que, no dia seguinte, chamarão mais atenção do leitor. Orientações específicas são dadas quando há necessidade, em geral na reunião de fechamento com os editores, e dependem do retorno das apurações conduzidas ao longo do dia. Ambrósio considera a pergunta se a Editoria Internacional segue alguma determinação prévia de posicionamento a respeito dos conflitos entre árabes e israelenses "capciosa por pressupor que a editoria não tenha capacidade de julgamento e que o material das fontes que recebemos não seja confiável. Pode ser que esse tipo de comportamento seja regra na imprensa árabe e na israelense, nas quais o posicionamento é mandatório".(7) Ele afirma a inexistência desta política no JB. Em momento algum se colocou em dúvida a capacidade de seleção das editorias internacionais. Pelo contrário, dispondo desta prerrogativa, as editorias manifestam aptidão para orientar os rumos de uma matéria. Notas: 1) Xiita: ramo islâmico defensor da sucessão religiosa e política restrita aos membros da família e descendentes do profeta Maomé. Sunita: aquele que segue os preceitos da Suna, coletânea de regras adicionadas ao Alcorão. 2) Livro sagrado do judaísmo, equivalente ao Velho Testamento da Bíblia cristã. 3) ARBEX JR., José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. 3 ed. São Paulo: Casa Amarela, 2001, p. 117. 4) Omar Nasser Filho em entrevista a Ruben Holdorf, por e-mail, em 31 de janeiro de 2008. 5) CHAPARRO, Manuel C. Pragmática do jornalismo: buscas práticas para uma teoria da ação jornalística. São Paulo: Summus, 1994, p. 100. 6) João Cláudio Garcia em entrevista a Ruben Holdorf, por e-mail, em 28 de fevereiro de 2008. 7) Marcelo Ambrósio em entrevista a Ruben Holdorf, por e-mail, em 28 de fevereiro de 2008. PS.: Este artigo é parte de uma dissertação de mestrado. *Ruben Holdorf é jornalista graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e tem dois mestrados, um em Comunicação, Educação e Administração, e outro em Educação. Atuou como revisor, repórter, articulista e editor online dos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná, onde participou da criação do Paraná Online. Ex-professor da UFPR, atualmente leciona no curso de Jornalismo do Unasp e é diretor de Jornalismo da Rádio Unasp. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9023786250983747
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