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MUNDO ÁRABE SE AFASTA DE ESTEREÓTIPOS

Por Parag Khanna* 

Um encontro da Liga Árabe tende a evocar os piores estereótipos do Oriente Médio: um protocolo disfuncional, exortações vazias denunciando o mal ocidental e um azedume sem sentido.

Mas a cúpula desta semana em Trípoli pode marcar um momento de virada. A Liga Árabe está cada vez mais séria e confiante, cogitando propostas que os EUA deveriam apoiar em vez de rejeitar.

Percepções ocidentais persistentes e equivocadas em relação aos árabes dão sustentação aos falsos parâmetros que usamos para analisar a região. Nós, norte-americanos, continuamos muito influenciados pelo trauma do 11 de setembro e pelo Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe preparado pelo Programa de Desenvolvimento da ONU e amplamente divulgado, que reforçou as imagens da corrupção e subdesenvolvimento árabe.

Mudanças

Mas o mundo árabe também é rico e cheio de recursos, abençoado com petróleo e estrategicamente localizado na intersecção da Europa, África e Ásia. Ele não será “deixado para trás” pela globalização.

Ao contrário, a tendência mais significativa e negligenciada da última década foi uma positiva globalização dentro do mundo árabe devido ao investimento transnacional e à mídia via satélite, como a Al Jazeera e a Al Arabiya.

Diferentemente dos booms anteriores do petróleo, os árabes guardaram seu dinheiro mais do que nunca nos anos que se seguiram ao 11 de setembro, incentivando a criação de empregos desde o Marrocos até a Síria e o fenômeno econômico de Dubai.

Nunca tantos jovens árabes participaram de intercâmbios estudantis, conferências de ativismo e blogs de internet. O mundo árabe é capaz de se modernizar e mostrou sinais promissores de que está fazendo isso.

Política

Também falhamos em compreender a realidade estratégica árabe. Se os árabes deveriam supostamente se alinhar com os Estados Unidos e Israel para conter as ambições hegemônicas do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã, então por que a Síria foi sede de um “conselho de guerra” do Irã e Hezbollah em Damasco no mês passado? E por que Qatar está explorando gás junto como Irã?

O fato é que a maioria dos árabes prefere um modo de vida que inclua o Irã – assim como muitos colaboram tacitamente com Israel nos assuntos de interesse mútuo.

Em vez de se considerarem encurralados entre Israel e o Irã, o objetivo árabe mais comum parece ser limitar à excessiva influência norte-americana na região.

Os norte-americanos acreditam amplamente que o mundo árabe ficou satisfeito com a eleição do presidente Obama há mais de um ano. Isso de fato aconteceu, mas não porque os árabes queiram uma liderança norte-americana forte na região; eles preferem administrar suas próprias questões com o mínimo de interferência norte-americana. Desde dialogar com o Hamas até negociar com o Irã, os Estados árabes estão resolvendo os problemas com suas próprias mãos. E isso é bom.

Diálogo

Nos dias anteriores à reunião da Liga Árabe este fim de semana, a organização sinalizou para a liderança palestina que apoia o diálogo direto com Israel, e está avançando para criar uma força pacificadora árabe que estabilize Gaza e reintegre o Hamas ao governo palestino.

Lidar com as divisões internas dos palestinos dessa forma realiza o objetivo dos EUA de subjugar o Hamas de uma forma bem melhor do que qualquer esforço norte-americano até agora.

A noção de que o governo Obama precisa “reabrir o diálogo e liderar” o processo de paz é rejeitada mesmo por aliados de longa data dos EUA como o ex-embaixador saudita em Washington Prince Turki al-Faisal, que disse recentemente: “Nós não queremos que Obama faça nenhum novo plano norte-americano. Apenas que nos ajude a implementar os já existentes.”

O mesmo se aplica ao lidar com o Irã. Em todos os encontros anuais do Diálogo de Manama do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, pequenos países do golfo falam sobre a criação de uma Conferência de Segurança do Golfo na qual tanto o Irã quanto Israel seriam incluídos – um passo que poderia melhorar muito a confiança regional conferindo mais transparência às atividades destes países. Mas em nome de preservar uma “frente unida” contra o Irã, os EUA sempre rejeitam a ideia.

Um Parlamento Árabe e um Conselho de Segurança Árabe também estão na agenda da reunião em Trípoli, assim como ideias de financiar mais escolas seculares. Se os EUA querem ver menos teocratas e mais tecnocratas no mundo árabe, deveriam acolher a liderança da Líbia e do Líbano, do Marrocos e de Qatar.

A região só atingirá um equilíbrio natural se os EUA aceitarem um mundo árabe que seja capaz de governar de acordo com sua própria vontade. Um equilíbrio que os EUA não precisem sustentar com sangue e dinheiro.

*Parag Khanna é pesquisador sênior da Fundação Nova América e autor de “O Segundo Mundo: Como as Potências Emergentes Redefinem a Competição Global no Século 21.”

Fonte: International Herald Tribune

Edição: Ibei

 

 

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