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A PAZ CONGELADA

Por Lejeune Mirhan*

Semana retrasada, no momento que Lula chegava a Israel e à Palestina, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, deixava o país após visita de alguns dias. Israel anunciava um projeto de construção acelerada de 1,6 mil novos apartamentos para judeus na parte árabe de Jerusalém (a parte oriental e velha da cidade). Uma bofetada em Obama e na sua política externa de subserviência ao sionismo e à Israel. Este é o fato mais marcante que queremos comentar esta semana.

A questão dos assentamentos

Este é um tema recorrente em nossas colunas semanais. Historicamente, o sionismo é um movimento que visa à colonização da Palestina e para isso fizeram amplas alianças com as potências imperialistas europeias e depois com os EUA, para levar à Palestina milhares de judeus de diversas partes do mundo. Sempre interessou a essas potências imperiais, a colonização daquela região, em especial logo no início do século XX, quando as primeiras grandes jazidas de petróleo foram descobertas nos países árabes.

Esses judeus sionistas originais eram pessoas, em sua maioria, conservadoras e mesmo direitistas, racistas e anti-árabes, tinham pontos de vista políticos e ideológicos muito semelhantes às elites europeias e americanas. Assim, fez-se uma espécie de aliança tática para a concretização do processo de colonização. Desnecessário dizer que os judeus, que sempre moraram na Palestina desde os tempos imemoriais, e que não saíram de lá com a diáspora judaica imposta pelos romanos no ano 70 dC, estes sempre viveram em paz com os árabes e palestinos.

No entanto, o processo colonizador levou centenas de milhares para a Palestina. Motivado inclusive pelo holocausto que Hitler impôs ao povo judeu na Alemanha, muitos queriam e precisavam mesmo abandonar a Europa, onde viver, para quem professava o judaísmo havia ficado quase impossível. Dessa forma, a ONU, recém criada, decide dividir as terras da Palestina, um ente jurídico e político único e milenar, em dois estados, o de Israel e a Palestina, então sob ocupação da Inglaterra. Mas, os judeus saíram na frente e criaram seu Estado em 14 de maio de 1948. Os palestinos nunca conseguiram, até os dias atuais, estabelecer o seu sonhado estado nacional.

Nesse processo histórico, o que era Palestina virou Israel e a parte que os judeus não ocuparam, os países árabes vizinhos tomaram conta, sem que o Estado da Palestina pudesse ser edificado. Os percentuais territoriais de um povo que controlava cem por cento as suas terras, caiu para 46% pela Proposta da ONU, foi caindo ainda mais depois da Guerra de 1948, mas em 1967, na Guerra dos Seis Dias, os palestinos não ficaram com mais nada, pois tudo foi ocupado por Israel, incluído ai a parte árabe de Jerusalém.

Os impasses da atualidade

Desde a proposta de iniciativa árabe de 2002, formulada pelos estados que compõem a Liga Árabe, qual seja, de que todos reconheçam Israel e em troca disso esse país devolve todas as terras palestinas (mais as sírias e libanesas) ocupadas e retorna a fronteira de antes da Guerra de 1967, passando pelas propostas formuladas pelo Quarteto (ONU, União Europeia, EUA e Rússia), hoje todos defendem a existência de dois estados convivendo em paz, com fronteiras seguras, lado a lado.

No entanto, particularmente desde a posse do atual gabinete de extrema direita de Israel, em fevereiro de 2009, sob o comando do primeiro Ministro do Likud, Benjamin Netanyahu, as coisas ficaram muito pior. Não há diálogo, apenas repressão. Colônias e mais colônias vêm sendo sistematicamente construídas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Israel segue proclamando o que a comunidade internacional e a ONU não aceitam, que Jerusalém seja a sua capital indivisível. Ou seja, não há diálogo possível, não há porta aberta alguma para negociações de paz. Os espíritos do lado israelense estão muito armados. Não bastassem terem matado 1,5 mil palestinos no ano passado em Gaza.

Desde a posse de Barak Obama, em janeiro de 2009, a diplomacia estadunidense vem defendendo o imediato congelamento de todo e qualquer novo assentamento, novas construções em terras palestinas (aliás, este termo é muito discutível; toda aquela região um dia não foi terra palestina? As terras desse sofrido povo não lhes foi tomada á força?).

No entanto, dia após dia, os anúncios de novos assentamentos e novas construções vêm sendo feitas pelo governo de Israel, que entregou o ministério da Habitação ao Partido SHAS, de extrema direita e antiárabe.

O episódio da visita de Biden à Israel e no mesmo dia ser anunciado que novas moradias judaicas seriam construídas em Jerusalém Oriental, elevou o grau de tensões entre os dois países. Dizem alguns estudiosos que desde 1975 o tensionamento não atingia níveis tão elevados. Até Hilary Clinton, que alguns chamam de Hilária, teve que elevar o tom de voz contra o governo de Israel.

O lobbie judaico é muito poderoso nos Estados Unidos. Apoiaram Barak Obama, deram-lhe milhões de dólares para a sua campanha. É sabida a ligação histórica que Hilary tem com o sionismo. O lobbie sionista atende pelo nome de AIPAC (cuja sigla em inglês significa The American Israel Public Affairs Commitee ou Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel ou coisa parecida) e tem, entre eles, donos de bancos, donos de jornais, donos de grandes redes de televisão. São muito fortes.

A história tem mostrado a ligação carnal, umbilical entre Israel e os Estados Unidos. Um não vive sem o outro. É ilusão e remotíssima a possibilidade de mudar a política externa americana. Dos EUA abandonar Israel ou cortar-lhes a anuidade de quase cinco bilhões de dólares em ajuda a fundo perdido, sem nenhuma prestação de contas.

A visita que Netanyahu fez aos EUA esta semana foi emblemática. Todos os grandes jornais impressos e redes de TVs registraram o fato. No entanto, as três horas em que passaram juntos discutindo a questão da paz no Oriente Médio na Casa Branca, não se viu uma só foto, nem um comunicado conjunto e muito menos uma entrevista coletiva ou uma declaração pública de ambos os chefes de governo e de estado. Nada. Porque isso?

O que se sabe é que continuam tensas as relações. No entanto, por mais poderoso que os EUA sejam, Israel vem demonstrando que não se dobrará ante às pressões americanas. Netanyahu declarou, em alto e bom som, a quem quis ouvir – e todos queriam – que as construções em Jerusalém vão continuar e que aquele episódio de instalar uma comissão para investigar a declaração de construção dos 1,6 mil apartamentos era apenas “para inglês ver”, ou seja, as construções vão prosseguir. Israel mostra a sua tremenda força política e moral sobre os EUA.

Um fato importante a ser registrado é uma crescente inquietação na cúpula das forças armadas estadunidense. Uma declaração irritada de Biden quando saiu “pisando duro” de Israel, mencionava que a política de construções ilegais que Netanyahu vem implantando estaria colocando em risco a vida de milhares de soldados americanos em todo o mundo, em especial no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão. O que ele quis dizer é que o sentimento antiamericano cresceria muito no mundo com essa política israelense. Que seria preciso distensionar imediatamente.

Não se sabe se isso ocorrerá. Circularam informações pela Internet de que o governo americano estaria exigindo de imediato uma demonstração clara do governo israelense de que este estaria disposto a um acordo de paz. Que suspenderia as construções. Que deveria tomar atitudes concretas e exemplos foram citados, como libertação de prisioneiros e em especial o afrouxamento na fronteira de Gaza, para passagem de alimentos, medicamentos e materiais de construção.

De minha parte, como me acompanham os leitores, sigo pessimista. Não vislumbro acordo de paz algum com esse governo israelense. No entanto, cabe um registro histórico: os acordos – poucos é verdade – de paz ocorridos na região aconteceram sob governos do Likud, direitistas e nunca sob governos sociais democratas dos trabalhistas. Vamos conferir.

* Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, escritor, arabista e professor. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association.

 

 

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